Repassem aos amigos, aos seus pais... Pode soar estranho, mas infelizmente é muito real.
Boa semana!
William Galvão Priante
William Galvão Priante
(15) 9749-3994.
Olha só que noticia interessante meu querido amigo Wil mandou pra gente... aproveitem bem a leitura ... bjos...
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles
que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para
virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada
– e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista
das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações.
Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da
tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque
conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a
fragilidade da matéria da vida. E por
tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu
com o patrimônio da felicidade. E
não foi ensinada a criar a partir da dor.
Há uma geração de classe média que estudou em bons
colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve
acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que
seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil.
Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a
sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no
mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria
um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a
pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não
acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos,
revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram
crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de
relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um
espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a
cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer é o mundo
que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes. Por que boa parte dessa nova geração é assim?
Penso que este é um questionamento importante para quem está educando
uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela
ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho
testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam
“felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e
protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização
nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os
pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é
sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações?
Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo
educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a
falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que
viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição
humana como de suas capacidades individuais? Nossa classe média parece desprezar o esforço.
Prefere a genialidade.
O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
Da mesma forma que supostamente seria possível
construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de
que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida
são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de
traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado
caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um
fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu
mereço”. Basta andar por esse mundo para testemunhar o
rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como
os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o
emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas
habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a
dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar
limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o
que quer. A questão, como poderia formular o filósofo
Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria
fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto
construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém
descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este
momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se
explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre
sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar
da tristeza e da confusão. Me parece que é isso que tem acontecido em muitas
famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do
pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos
para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da
sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da
vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no
mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto
familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da
completude. Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já
que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria
rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por
acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de
crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode
tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém
dentro de casa. Se os filhos têm o direito de ser
felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que
tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer
um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão
previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só
é possível fingir. Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não
conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas
materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe
fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem
intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após
dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se
desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode
dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso
logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto,
estão perdendo uma grande chance.
Todos sofrem muito nesse teatro de
desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe
uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho
mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa. Quando converso com esses jovens
no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos
quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a
realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem
coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com
habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que
se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de
desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de
responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente
vira gente grande.
Seria
muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um
Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá
contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e
falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com
dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas
estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo
pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o
respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a
matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o
suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa
ser dito. Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu
filho merece tudo simplesmente por existir, paciência.
De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de
conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é
ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou
para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza
vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a
responsabilidade pela sua desistência. Crescer é
compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos.
E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela
acaba. Colaboração: Zirair Karmirian Filho
ELIANE BRUM Jornalista, escritora e
documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de
reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que
Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua
(Globo).
Nossa, tava procurando esse texto há um tempo e não lembrava onde tinha lido.
ResponderExcluirObrigada por posta-lo
:) Tassy